O ideário das coisas simples

28.03 – 30.05.26

Quando Jarvis Cocker lançou, em 1995, o estrondoso sucesso Common People, inspirado numa personagem cujo desejo era viver como uma pessoa comum, dificilmente estaria apenas a comentar hábitos e comportamentos quotidianos. A canção abre uma fissura mais profunda. Ao ampliar a lente percebemos que a narrativa não se limita a observar o “comum”, mas antes a expor uma distância social e simbólica: a incapacidade de certos universos reconhecerem a existência de outros. Absorvidos pela bolha a que pertencem, os sujeitos da história revelam uma espécie de miopia estrutural, incapazes de ver aquilo que existe imediatamente ao lado.

Essa condição de cegueira social encontra ressonância noutras obras da cultura contemporânea. Recorde-se Le Charme discret de la bourgeoisie, de Luis Buñuel, filme que constrói uma sátira subtil à classe burguesa, revelando um universo fechado sobre si mesmo, onde a normalidade se torna caricatura. O humor surreal de Buñuel expõe precisamente essa suspensão da realidade, um mundo que avança como se a sua lógica interna bastasse para explicar tudo. Também o capital se movimenta de forma semelhante. Os sistemas de produção e gestão seguem trajetórias determinadas por oscilações de mercado, tendências de consumo e mutações de gosto. O valor não é fixo, é contingente. No universo da arte, esta dinâmica manifesta-se de forma particularmente evidente: artistas e obras são continuamente reavaliados, oscilando entre reconhecimento e esquecimento. O que hoje ocupa o centro pode amanhã desaparecer da narrativa dominante.

Ao mesmo tempo, a própria natureza da criação artística sofreu transformações profundas. Na contemporaneidade, a obra já não se define exclusivamente pela sua materialidade ou virtuosismo técnico. O artista opera muitas vezes como mediador de significados, organizador de referências e experiências. Como argumenta Nicolas Bourriaud, o artista contemporâneo tende a agir menos como produtor de objetos originais e mais como editor ou programador de signos culturais, reorganizando materiais existentes e propondo novas leituras do mundo. Neste contexto, a legitimidade artística deixa de depender exclusivamente da formação académica institucional. O conhecimento pode emergir de processos informais, de percursos autodidatas, de práticas de observação e experimentação continuadas. A arte contemporânea tornou-se, em grande medida, um território de circulação e recombinação de experiências.

É neste horizonte que se inscreve o trabalho de Fernando Silva. Autodidata com um percurso de cerca de duas décadas, o artista construiu a sua prática a partir de um processo de exploração pessoal e persistente. A simplicidade do quotidiano, aquilo que normalmente passa despercebido, constitui o seu principal campo de atenção. O que poderia parecer banal transforma-se, na sua abordagem, em matéria de investigação visual.

Em O ideário das coisas simples, apresentado na ARTLAB24, Fernando Silva reúne oito obras sobre papel que exploram uma linguagem abstrata baseada em estruturas lineares. As composições organizam-se sobretudo através de linhas horizontais e verticais, frequentemente monocromáticas, criando ritmos subtis e campos de tensão visual contidos. Longe de procurar espetacularidade formal, o artista concentra-se na repetição, na variação mínima e na economia de meios.Essa opção revela uma atitude quase meditativa perante o processo de criação. As linhas tornam-se registos de tempo, gestos sucessivos que acumulam presença e silêncio. O olhar do espectador é convidado a desacelerar, a percorrer lentamente superfícies onde pequenas diferenças ganham significado.

Assim, aquilo que à primeira vista se apresenta como simplicidade revela-se, afinal, um exercício de atenção. Num mundo saturado de estímulos e discursos, estas obras propõem uma pausa, um espaço de observação onde o essencial volta a ganhar densidade. O ideário das coisas simples não é, portanto, uma celebração da banalidade, mas uma tentativa de reencontrar, no mínimo e no comum, uma forma renovada.

Paulo Moreira


Fernando Silva nasceu em Esgueira-Aveiro em 1961.

Realizou o seu percurso académico entre a Escola Secundária de Estarreja e o Liceu José Estevão em Aveiro. Com formação desportiva, curso de treinador da antiga Direção Geral dos Desportos 1979/80, foi atleta e treinador das camadas jovens do C.D. Estarreja e fundador da respetiva escola de jogadores. Mais tarde treinador e diretor para o desporto, da Associação Cultural de Salreu. Treinador no campeonato distrital do INATEL nesta Associação. Integrou vários coletivos, desde teatro para crianças, uma banda musical de rock interventivo “Silver Train” após o 25 de Abril, os “Reginos” cantadores de janeiras do concelho de Espinho. Foi fundador e primeiro presidente da Associação de pais e encarregados de educação da Escola nº2 de Espinho – Tourada, consequentemente participou na fundação da Federação Concelhia de Associações de Pais do Concelho. Ligado há algumas décadas à hotelaria e restauração na cidade de Espinho.
Em 2010, entusiasmado pela arte, inscreve-se no atelier de artes plásticas ” oficina das artes” do Museu Municipal de Espinho (FACE), sob orientação do pintor Paulo Moreira. Participou na exposição coletiva de alunos do curso de artes do FACE, no museu de Espinho, tendo exposta e pertencente à coleção do museu, uma obra em conjunto com outro autor. Em 2018 participa em algumas exposições coletivas nomeadamente na ARTLAB24. Em 2019 participou numa exposição coletiva no Fórum da Maia.